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Janeiro

2021/Janeiro – Diferentes olhares sobre a pandemia

Referência:  Ética 6 de Edgar Morin

Textos enviados (clique nos títulos para baixar os textos):

1. Edgar Morin e a pandemia: Changeons de voie. Les leçons du coronavirus – Cristina Esteves

2. A pandemia do covid-19 e a ética planetária – Ildeu Araujo

3. Lições da pandemia do coronavirus à luz do livro Ética de Morin. Algumas reflexões – Claudia Vial

4. Ética ao planeta – Andréa Lisly

5. Ética e Pandemia do covid-19 – Nilson Amaral

6. Reflexões sobre a pandemia – Sonia Moraes

7. As lições da pandemia do coronavírus à luz do livro Ética de Morin – Vanessa Horta

8. Lições da pandemia à luz da ética de Edgard Morin – Daniela Yokoyama

9. Esperanza – Clara Almeida

 

1 – Edgard Morin e a pandemia: as lições do coronavírus

Cristina Esteves

Baixe o material da aula.

 

2 – A pandemia  do covid -19 e a ética planetária

Ildeu Geraldo de Araújo

Edgar Morin escreve:

“Pela primeira vez, na história humana, o universal tornou-se realidade concreta: é a intersolidariedade objetiva da humanidade, na qual o destino global do planeta sobredetermina os destinos singulares das nações e na qual os destinos singulares das nações perturbam ou modificam o destino global. ”

A pandemia do Covid-19 é uma demonstração cabal dessa globalização do destino humano. Estamos no mesmo barco ou no mesmo planeta, queiramos ou não.

Entretanto a sociedade hodierna não demonstrou a intersolidariedade necessária para uma resposta humanitária de caráter planetário.

Cada país adotou suas medidas sem nenhuma coordenação mais ampla. A OMS – Organização Mundial da Saúde – ligada à ONU, com a função de aconselhar os países em questões de saúde e de encorajar a adoção de medidas ou ações baseadas em seus estudos, não tem poder para gerir um sistema de saúde mundial.

Houve uma politização imprópria envolvendo a OMS, os Estados Unidos e a China no reconhecimento da infecção por Covid-19 como pandemia.

Os critérios econômicos prevaleceram na distribuição das vacinas em desenvolvimento. Desde o início da pandemia, empresas se apressaram para multiplicar o registro de patentes. O acesso às inovações para responder à pandemia se transformou em uma disputa bilionária, com elementos de geopolítica e deixando dezenas de países sem estoques, sem fornecimento e sem recursos.

Líder histórico da luta pelo acesso a tratamentos, o Brasil, sob o desgoverno de Bolsonaro,  não  aderiu ao projeto dos países emergentes que propõem suspender regras de patentes para vacinas, remédios, testes e tratamentos contra covid-19 até que a imunidade de rebanho seja atingida.

O governo brasileiro teve uma atuação catastrófica frente à pandemia. Num programa do Instituto Conhecimento Liberta (https://www.youtube.com/watch?v=c3v_1akMZqA&feature=youtu.be), o filósofo Vladimir Safatle afirma que não se trata de negligência, irresponsabilidade ou de uma desordem, mas sim de uma ordem macabra: o Brasil se transformou num laboratório mundial de uma certa ordem que muda radicalmente a relação entre Estado e proteção. A concepção moderna atribui ao Estado a proteção das pessoas contra a morte violenta, inclusive por pandemia, proteção de seus bens e contra a invasão estrangeira. Está em curso uma mudança radical. O que o Estado brasileiro está dizendo é: “não contem conosco para essa proteção”. Para cimentar essa nova filosofia o governo procurou criar um clima de indiferença social. Estamos com mais de 200.000 mil mortes e não há uma indignação forte e generalizada.

Eu e minha família estamos em rigoroso isolamento desde março do ano passado. Estamos vivendo esse tempo com relativa tranquilidade. Temos conseguido uma convivência familiar bastante boa. Mas fico pensando na quantidade de pessoas que estão se arriscando para nos proporcionar conforto e segurança nesses tempos. E a multidão de seres humanos que não dispõem dos recursos necessários para essa forma de proteção de suas vidas?

Refletindo sobre a pandemia, em “Fratelli Tutti [34]”, diz o Papa Francisco:

“Se tudo está interligado, é difícil pensar que este desastre mundial não tenha a ver com a nossa maneira de encarar a realidade, pretendendo ser senhores absolutos da própria vida e de tudo o que existe. Não quero dizer que se trate duma espécie de castigo divino. Nem seria suficiente afirmar que o dano causado à natureza acaba por se cobrar dos nossos atropelos. É a própria realidade que geme e se rebela… Vem à mente o conhecido verso do poeta Virgílio: evocando as lágrimas das coisas, das vicissitudes da história: «Sunt lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt – são lágrimas das coisas, as peripécias dos mortais confrangem a alma». (Cf. Eneida I, 462)”

Para mudar esse quadro, Morin adverte: “Precisamos agora de uma ética da comunidade humana que respeite as éticas nacionais integrando-as. ”

É necessário que a humanidade:

1. Tome consciência da identidade humana comum;

2. Reconheça que formamos uma comunidade de destino ligando cada destino humano ao destino do planeta;

3. Eduque-se para a compreensão do próximo e do distante que compartilham este planeta.

4. Tome consciência da finitude do homem no cosmos (que a pandemia mostrou tão possível) e da necessidade de se estabelecer limites para a expansão material, e de desenvolver a humanidade do ponto de vista psíquico, moral e espiritual;

5. Tome consciência de que a terra é uma totalidade complexa física−biológica−antropológica em que a Vida é uma emergência da sua história e o homem uma emergência da história da Vida;

6. Tome consciência da necessidade de uma pilotagem consciente e reflexiva da humanidade e uma pilotagem eco-organizadora inconsciente da natureza para dirigir o planeta;

7. Mirar alto e longe no espaço e no tempo ao estabelecer os parâmetros da ética da responsabilidade e da solidariedade com os nossos descendentes.

8. Tomar consciência da Terra-Pátria como comunidade de destino/de origem/de perdição.

Para a pilotagem consciente e reflexiva do planeta, visto como Terra-Pátria é necessário o desenvolvimento de mecanismos de tomada de decisão e de ação em nível planetário.

Na visão do Papa Francisco:

“Se não conseguirmos recuperar a paixão compartilhada por uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens, desabará ruinosamente a ilusão global que nos engana e deixará muitos à mercê da náusea e do vazio. Além disso, não se deveria ignorar, ingenuamente, que «a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca».  O princípio «salve-se quem puder» traduzir-se-á rapidamente no lema «todos contra todos», e isso será pior que uma pandemia. ” (Fratelli Tutti [36].

Será um doloroso processo de degeneração.

Entretanto existe esperança para a regeneração. Não poucas pessoas estão estudando, debatendo e se organizando para tirar lições dessa terrível crise que enfrentamos. Não acredito que tanto sofrimento seja em vão. O Papa Francisco tem animado os católicos, os cristãos de outras igrejas, os crentes de outras religiões e as pessoas de boa vontade a se oporem ativamente ao processo degenerativo produzido pelo neoliberalismo. Ele reconhece os “percursos de esperança”:

“Apesar destas sombras densas que não se devem ignorar, nas próximas páginas desejo dar voz a tantos percursos de esperança. Com efeito, Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade. A recente pandemia permitiu-nos recuperar e valorizar tantos companheiros e companheiras de viagem que, no medo, reagiram dando a própria vida. Fomos capazes de reconhecer como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns que, sem dúvida, escreveram os acontecimentos decisivos da nossa história compartilhada: médicos, enfermeiros e enfermeiras, farmacêuticos, empregados dos supermercados, pessoal de limpeza, cuidadores, transportadores, homens e mulheres que trabalham para fornecer serviços essenciais e de segurança, voluntários, sacerdotes, religiosas… compreenderam que ninguém se salva sozinho. ” (Fratelli Tutti [54].

 

3 – Lições da pandemia do coronavirus à luz do livro Ética de Morin. Algumas reflexões

Claudia Vial  Ribeiro

De um dia para o outro, a pandemia virou de ponta a cabeça o mundo que conhecia, o cotidiano, as rotinas, os hábitos, os planos sociais e de lazer … suspendeu todas as minhas listas e agendas.  Tudo ficou fora de foco. A pandemia suspendeu principalmente o tempo. De repente, impedida dos mil afazeres e distrações habituais, me vi laçada a conviver intensamente comigo mesmo –  lançada dentro do Espelho.

No primeiro momento, enfatizei ritmos e rituais: horários, alimentação, higiene, compromissos virtuais. Valorizei as cotidianices. Depois de um tempo comecei a tocar o meu relógio interno. Aprumei-me.

Simultaneamente, tive de encarar a barbárie do espirito. –  Meu Deus, vou ficar a sós comigo por tanto tempo!? Como vai ser? Estou apavorada! Ao estar sozinha, tive de exercitar conviver intensamente com os vários eus, que no dia a dia, antes da pandemia, se trombavam sem nunca terem tempo para um DR.  Como gostar da minha companhia, como conviver comigo mesmo admirando-me e em paz? Ficamos a sós. No início, muitos ruídos. Depois, silencio. Quais meus eus amigos? Enfrentei e resisti a barbárie do espirito, bloqueando eus sabotadores, rancorosos, saudosistas, tagarelas e maledicentes. Disse – NÃO! Passei a tentar cultivar os eus amigos, ampliando essa rede de bons vizinhos. Reconheci os antagonismos e contradições dentro de mim e me dispus a trabalha-los – sem culpa ou acusação, buscando compreende-los para corrigir o meu caráter.  Senti que alguns sentimentos separados começaram a se juntar. Reconciliaram-se.

A pandemia também me estimulou a pensar a arquitetura, especialmente sobre a casa, pois esta se transformou radicalmente – se transtornou. A casa virou escritório, aberta e disponível 24/7. A casa vitrine exigiu ser usada e o layout desfigurado.  O que fazer com as crianças? E os animais? A simultaneidade e intensidade de convivência da família no mesmo tempo e espaço desorganizou a ideia de casa, aguçando irritações, trazendo a tona problemas adiados, obrigando a rever modelos e reais necessidades. Essas e outras perguntas me convidam a explorar essas disrupturas expandindo meu conhecimento e alterando o meu próprio modo de pensar a arquitetura.

No contexto da pandemia, vi que todos nós estávamos no mesmo mar – mas nem todos no mesmo barco. Esta situação expos uma fraternidade fraca e me aguçou a consciência da enorme desigualdade social em que vivemos. Ela ficou muito exposta. E históricas dívidas veladas regurgitaram, me mostrando a dimensão do estrago – e injustiças –  das cooptações e acobertamentos sociais coniventes com o status quo do poder vigente – que fez parte e teve consequências na minha formação, com fortes doses de conformismo e de alienação, impedindo-me muitas vezes de pensar bem.

O coronavírus colocou em evidencia o mundo todo interconectado, dramatizando para mim o fato de constituirmos e pertencermos a uma humanidade planetária. Tais os pássaros, o vírus desconhece a cartografia de nossas fronteiras geográficas.

A pandemia expos nas manchetes das ruas e mídias – dando nome e rosto – as forças de religação e de separação, de integração e de desintegração, exigindo-nos posicionamentos, escolhas de valores, e principalmente, discernimento.

A intensa vivencia de incerteza que a pandemia trouxe fez com que refletisse sobre a ecologia de ação de minhas decisões, sobre os riscos, os limites, a fragilidade da vida e a morte. Exercício (ou choque!) de humildade e de realidade. Ao mesmo tempo, de urgência de viver plenamente. (Diria Jane – Vai esperar quando?)  E nesta viagem, focar no que realmente importa.  Que mundo quero construir hoje? O que – ou quem – vou deixar entrar pela minha porta?

De repente, me pego alegre e sinto o calor de muita gente ao meu lado. Porque é impossível construir esse mundo sozinha. O NÓS não é opção, é condição. O mundo é mutirão humano. Ao conversar com uma pessoa – sendo presente – construo o mundo.

Voltar a normalidade será um desastre. Espero voltar transformada para um novo mundo revisitado e maturado pelo meu pensamento crítico.

A pandemia fortaleceu em mim a importância da bondade, da amizade e da afeição. Mostrou-me a forca da solidariedade e da resistência, da necessidade vital de uma vida poética, artística e amorosa junto com companheiros.

O Artear é onde minha mão alcança e o meu braço abraça.

Vamos construí-lo juntos?

 

4 – Ética ao planeta

Andréa Lisly

A partir da passagem em que Edgar Morin sistematiza as questões relacionadas à ética nos contextos de crise, busquei traçar alguns aspectos da emergência sanitária trazida pela pandemia de Sars cov 2, no ano de 2020 e no início de 2021.

Em primeiro lugar, Morin observa algo mais ou menos previsível: as crises agravam as incertezas, tornando a “aposta” muito mais instável quanto as seus resultados do que nas (poucas) situações de estabilidade que a humanidade conheceu em sua história, como aquelas que se seguem à paz de conflitos bélicos, às revoluções. Talvez sejam esses momentos o que realmente testem a capacidade do sujeito que optou por incorporar as formulações do filósofo acerca da ética.

Antes do desfecho das eleições nacionais no Brasil, em 2018, ouvi de Vladimir Safatle, em uma conferência em Belo Horizonte, que o acaso quis que a aquelas diversas gerações ali representadas vivenciassem um dos momentos mais decisivos da história do país e, porque não, da humanidade.

O mesmo acaso quis que esse “recorte demográfico” experimentasse em nível planetário uma das maiores pandemias que atingiu todo o globo em mais de cem anos. Aos poucos, as duas observações, a do governo eleito em 2018 e a da pandemia, de finais de 2019 e início de 2020, associaram-se na formulação de que o Brasil era o pior país do mundo (sem hipérbole) para se viver uma emergência sanitária.

De fato, poucos dias ou meses depois, estaríamos diante de um laboratório que nos permitiria testar até onde iria nossa capacidade de conjugar a moral, vista como uma dimensão individual da formulação dos valores e a ética, compreendida como a projeção da moral na coletividade. De testarmos se seríamos capazes de transformar o nosso egocentrismo em altruísmo, se conseguiríamos nos religar com a espécie, com a sociedade, com o globo.

As populações dos países ditos centrais e seus dirigentes mostravam-se atônitos, céticos, a primeira reação sendo a de negar o vírus, a de se recusar o isolamento social, imposição que poderia ferir as liberdades individuais, tão duramente conquistadas e mantidas, dilema do qual não escapou nem um dos principais filósofos da atualidade, o italiano Giorgio Agamben. Mesmo se encontrando em um país que era o “olho do furacão”, assim como seus compatriotas o filósofo criticou o ensino remoto e alertou para as consequências que a adoção dos protocolos, apenas entrevistos, àquela altura, para o combate à covid 19, trariam em termos de comprometimento dos direitos civis dos cidadãos. Um dos primeiros testes, dos muitos que viriam, para as decisões baseadas na ética para o enfrentamento de um fenômeno tão grave quanto inesperado.

As primeiras notícias foram a de que a peste seria ecumênica. Não pouparia ricos e ou remediados, assim como afetaria os pobres. O que se viu, porém, foi que, mesmo tendo sido disseminada por aqueles e aquelas pessoas cosmopolitas, que viajavam, fosse a negócios, fosse a laser, um prenúncio do que se avizinhava emergiu quase como uma metáfora no fato de que a primeira vítima fatal, no caso brasileiro, fosse a empregada doméstica da patroa recém-chegada do exterior.

Em um país em que as contradições, principalmente as sociais, mas também as políticas, acirraram-se nos últimos quatro anos, pelo menos, o grau alcançado pelas incertezas foi, e continua sendo, gigante.

Um dos dilemas morais e éticos que se colocaram com intensidade, naquele instante, girou em torno do principal meio de combate à pandemia: o isolamento físico. Tratava-se de uma opção pessoal ou deveria ser regulado pela lei? Seria uma transgressão passível de que tipo de sanção? Pecuniária, como se adotou, no início, na França? Deveria levar à privação da liberdade (algo quase tautológico pois, nos dois casos, a pena seria a do isolamento…)? A quem caberia vigiar e punir?

Aos poucos, lado a lado com o reforço das medidas preventivas – a ciência precisou de um tempo para estabelecer o grau de eficácia do uso de máscaras; o nível de contaminação pelas superfícies do objeto; a vacina continuava sendo uma esperança que só poderia se cumprir a longo prazo – foram se delineando encaminhamentos políticos que tenderam a obedecer a certas orientações ideológicas. Deslocava-se, assim, do monopólio da ciência a formulação de medidas de combate ao vírus, que variavam dos alertas quanto à sua nocividade a praticamente à negação da sua existência.

É difícil explicar, de forma categórica, as razões pelas quais, grosso modo, os líderes de países situados no espectro político da extrema-direita tenderam a negar a situação. Com isso, e dentro da obra de Morin, a defender-se contra o esclarecimento, a pensar bem. Tais lideranças, apoiadas por parcelas às vezes majoritárias da população, adotaram o discurso do que seria um mal menor, ou de que os fins justificariam os meios, exemplificado no falso dilema de que a paralização das atividades econômicas seria muito mais perniciosa do que a morte de milhões de pessoas, por exemplo. Por trás dessa decisão, uma longa tradição de negacionismo que, na Europa, particularmente na França, levou à negação da existência de campos de concentração na Alemanha nazista, na Polônia, no Leste europeu. Na mesma tradição, os negacionistas da emergência climática também se fizeram presentes. Acentuaram-se as tendências à adesão às teorias conspirativas, fruto muito mais da opção política e existencial, do que propriamente da ignorância ou do desconhecimento: a má fé ou a fé má.

Por trás dos interesses poderosos, que poderiam beneficiar a uns poucos, havia a adesão de setores populares em número significativo, contrários ao establishment, composto, inclusive, pelos próprios cientistas, professores universitários, com suas posições consolidadas nos sistemas de poder, principalmente, nos países centrais.

Talvez uma das perguntas mais insistentes, ouvidas ao longo dessa pandemia, é a de que se sairemos melhor do que antes de sermos postos diante de algo tão inesperado. À pergunta não cabe uma única resposta. Afinal, as crises [também] “favorecem as soluções neuróticas ou patológicas”, o que inclui a “designação, a perseguição e até a imolação de bodes expiatórios, indivíduos, grupos, classes, etnias, raças” – no caso da pandemia, os chineses e seus “hábitos alimentares”; a busca de “soluções imaginárias e quiméricas”, como as opções individualistas, muitas vezes recobertas da noção de auto ajuda, que supõe soluções fora da ética e da política. Porém, podem-se estabelecer critérios para que as respostas dadas, mesmo que provisórias (e assim é necessário que o seja) se deem de acordo com critérios éticos. O primeiro deles, o reconhecimento de que a situação só pode ser enfrentada a partir do conhecimento complexo (que permite soluções progressivas e não regressivas, no último caso, um exemplo, sendo a volta a um passado idealizado). A interpretação do contexto, o mais próximo possível das diversas realidades, se coloca como um ponto importante a ser enfrentado. É necessária a consciência da busca de soluções novas (não regressivas) inspiradas pelas forças regenerativas que habitam tanto o ser social, quanto o individual. Um desafio maior, principalmente estando no pior país para se viver uma pandemia dessa magnitude, esteja em resistir à histeria e agir guiado pela tolerância e pela compreensão. Um esforço cotidiano, já que também são diuturnos, os desmandos, o autoritarismo, o logro e a barbárie.

Princípio da incerteza

Causa e consequência

Os fins e os meios

Fogem à onisciência

Não sendo suficiente

O desejo de acertar

Toda a boa vontade

Esbarra na incerteza

No instável. De verdade

A disposição de alcançar

O certo, o justo, o raro

Esbarra sempre no melhor

Esse claro Inimigo do bom

Para não dizer que não falei dos EUA

A base de Guantánamo

Contra o perigo cubano

Passados muitos anos

Abriga o que contraria

Qualquer direito humano

Poema imperativo

Apreste-se lentamente

Demore-se insistentemente

Ignore o tempo certo

Repouse no desperto

Morin e a pandemia: algumas lições

As lições de Morin

Em tempos de peste

Neste planeta agreste

Alta noite ou de manhã

Impactam certezas:

Erro quando persigo

Com ares de inquisição

O que seria o inimigo

Que se nega à proteção

Sua ou dos cidadãos

Tenho em minha mão

A escolha da compreensão

***

Para Cristina

Não é que essa menina

Escolheu amar Morin

E afastar a moralina?

Escala o cume da colina

E bem lá de cima

Ensina a todos nós a

Arte do bem pensar

ser solidário e amar

Na ética do religar!

 

5 – Ética e Pandemia do covid-19

Nilson Amaral

Escolho três situações que vejo relacionando ética e a pandemia do covid-19.

A primeira é a fala do Papa Francisco a respeito da vacinação. No dia 09/01/2021 ele disse: “Eu acredito que, eticamente, todo mundo deve tomar a vacina. É uma opção ética porque você aposta na sua saúde, na sua vida, mas também na vida dos outros.”

A segunda situação refere-se às manifestações contra o prefeito Kalil, em frente a Prefeitura de Belo Horizonte, quando tudo que se explicita é o retorno às atividades que embasam na preservação de atividade e vida econômica. Chegam ao ponto de, novamente, de se investirem contra a bandeira do Brasil e dizendo que sua bandeira jamais seria vermelha.

Um, na direção ética em favor da vida em sua dimensão que inclui o si mesmo e o outro. A atitude em si, auto-reflexiva, e extensiva ao bem comum, ao outro. Inclusive, usa o mesmo tipo de colocação de Edgar Morin, que diz “precisamos escolher, apostar”.

Já, o outro, tem me provocado certo estranhamento pela ausência de inclusão, por parte desses manifestantes, de um dos aspectos mais relevantes nesses tempos, ou seja, falta incluir na pauta de reivindicações a explícita defesa em favor da vacina e da vacinação. Isso, sim, constitui um bom argumento em favor da economia e com grande auxílio frente aos negacionistas. A exclusividade do capital impõe um quase impedimento de se apresentarem em oposição a aspectos que interferem em polarizações políticas. Também pode ser que com o povo vacinado aumente a chance dele sair às ruas para demonstrarem insatisfações.

Como se precisassem resolver pendências de posicionamentos que interferem nos princípios que regem a vida. O modo de abordar essas questões as tornam como contradições ético-político-econômicas sem perspectiva de aproximação. Daí, inviabiliza-se o complemento entre a convicção e a ética da responsabilidade, o que faz o homem autêntico. Parece haver uma preponderância excludente que provoca a cisão humana em prol de interesse específico particular. O temor da miséria econômica, da perda do poder, encobre a demanda da viabilização da vida que inclui o outro. A proteção de uma arma em lugar da vacina? Talvez, para começar a resolver a ideologia da imunidade de rebanho precise começar a lidar com o fanatismo de massa.

Mais um tópico que considero que representa muito e que me sinto até com certa impotência refere-se a omissão dos conselhos profissionais de medicina. Penso sempre que, por exemplo, em relação a algumas propagandas de remédios, sem fundamentação e sem amparo científico, se tal veiculação fosse feita por um outro profissional de saúde, os conselhos já teriam se manifestado como um trator contra tal oportunista charlatão. Mas, no cenário atual, não se vê essa gana em defesa da medicina, dos próprios profissionais médicos que ficam expostos à mercê nesse jogo. A minha sensação de impotência é de me fazer não ter atitude perante o conselho de classe, seria esse o caso? É estratégico?

Há que se cuidar da pressa da certeza, da falta de serenidade diante da incerteza, da aflição da dúvida, da sensação de incongruência no antagonismo complementar, do descrédito ao absurdo na contradição, de romper com “a audácia do temor”, de buscar a perspicácia da diferenciação e discernimento que abre caminho anti-inocência e anti-ingenuidade; um ser ativo que pensa bem e pensa-se bem.

Mais Alguns pontos e Covid-19

(pós seminário, em 17/01/2021)

Hoje uma de minhas sobrinhas está indo fazer as provas do ENEM-2021.

Diante das posturas dos órgãos que se puseram a decidir quanto a sua realização ou não, considerando o contexto da pandemia do covid-19 e sua piora de comportamento epidemiológico com reelevação dos números de casos fatais e de contaminação, me pus a pensar em alguns aspectos.

Ao perceber a decisão judicial de se manter a aplicação das provas, mesmo diante da realidade e suporte científico que sinaliza indicando a prudência do seu adiamento, penso haver mais um jogo perverso que se relaciona a esse papel institucional. Desse modo, novamente, os responsáveis que deveriam agir como instrumento de proteção, acabam por transferir, de modo pulverizado, aos pais e responsáveis pelos alunos a decisão de se dirigirem ou não aos sítios de realização das provas. Como enviar o filho a um local cuja saída implica em exposição ao risco do contágio? Uma maldade praticada pela autoridade! Uma esquiva em assumir um posicionamento que contribui para a disseminação de rumores. Ilude que haverá garantias de segurança de saúde, mas apenas no âmbito do papel. Procede-se, mais do que uma transferência de responsabilidade, mas nesse tipo de ponciopilatização moderna, simplesmente alheia-se da questão. Em vez de entrarem inteiro na questão, abraçarem assumidamente a situação, se eximem dela. Exercem o repasse. Cheira-me a um tipo de teste para forçar a barra para outras situações, como artifício para o retorno às aulas. Comparações indevidas, como:

Se pode fazer festa e ir ao shopping então pode fazer ENEM!

Se se pode fazer ENEM então pode ir à escola!

Se o mito pode dar braçadas praianas aglomerantes então pode abrir estádio para a torcida!

Se se pode comprar arma então não precisa vacinar e até pode matar a quem quer vacinar!

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ANVISA: além da demonstração explícita de intervenção negacionista no processo da elaboração da vacina, quando se deu guarida política no fato da morte, por auto-extermínio, de um participante do estudo, que foi precipitadamente relacionada à vacina em comemoração inaceitável, pela morte e pela ação anti-vacina, aberração esta já diluída nesse mar de intencionados despautérios, fico a pensar na atual necessidade de posicionamento desse órgão para a liberação da vacina em caráter de emergência epidemiológica mundial. Fico vendo o tanto de questionamentos e detalhamentos (sem desconsiderar a importância de fundamentação científica), mas estranha-me onde está a ANVISA diante da postura em relação a tantos tratamentos despejados politicamente (uma vez que cientificamente já perdeu o amparo quase total para indicação de uso largo na covid-19), como é o caso da Cloroquina, indicada e verdadeiramente receitada e incluída no receituário mediquez  pelo ilustríssimo presidente, sob as barbas das instituições médicas e desse órgão regulador. Assim, estabelecem os pré-requisitos: a Cloroquina está aceita prontamente pela indicação presidencial (inclusive produzida em larga escala); já a vacina teremos que saber apenas alguns detalhes, como o RNA de cada vírus, o endereço com CEP, CPF e celular de cada um para caso de necessidade de contato. Logo vemos, pode (“está autorizado”) Cloroquina e penduricalhos! Então, precisa de vacina? Cabe lembrar Morin, quando diz: “À força de sacrificar o essencial pela urgência, acabamos por esquecer a urgência do essencial”.

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Outro detalhe interessante e curioso quanto a algumas terminologias usadas nesses tempos atuais, de desmontes institucionais, perdas de direitos trabalhistas e que as alegações terrivelmente econômico liberais, articulam verdadeiros padrões de controle amortecedor. Dá-se um nome que cheira a um elogio enaltecedor e que cria uma espécie de contenção da consciência. Uma espécie de afago de contenção. O que quero dizer, diz respeito a coisas até já percebidas e ditas, e acrescento uma. Já enalteceram, afundando em verdadeira escravidão consentida, vários trabalhadores e chamando-os por empreendedores. Aos cidadãos de bem, bem armados atribuem como grandes defensores da sociedade malévola. E, finalmente, meu acréscimo, que tenho percebido atribuído aos profissionais de saúde, que muitos procuraram homenagear em reconhecimento irrecusável, em linha de frente, no front, atribuem a delicadeza do trato como colaboradores. Tanta maldade embutida em meras palavras de domínio!

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E, finalmente, hoje, vendo trechos da apresentação da autorização de uso das vacinas, feita pelo Ministro da Saúde, vi o quanto toda a turma de militares que estão no poder demonstram, no trato, um jeito peculiar de falar aos seus interlocutores: expressam como a dizerem para seus subordinados, seus recrutas em rotina militar. Com certa abrangência, até as instituições estão em posição de subordinação. Ouvem-nos quando querem, do jeito que querem, desprezam e até elogiam conforme a conveniência e respondem quando e como querem. Daí, vê-se com frequência a presença de plateias pré-selecionadas para babarem teatralmente neles. Quando aparece algum tipo de questionamento com mínimo de indagação, responde-se ao subalterno de forma hostil, jocosa, desdenhosa, devolvendo-lhe algo que possa diminuí-lo e com total desvio do assunto. Ressaltam o desprezo e a indiferença, o que aumenta a distância da barreira do abismo. Afinal, ele não quer falar sobre isso qualquer. Mesmo e, às vezes principalmente, que seja só por isso! Esmera-se em buscar a maldosa resposta de maior alcance e efetividade, quer aprimorar ao máximo a maldade, destilar o seu ódio com sorriso de sarcasmo. Como a afiar o punhal do ódio para estocar ao ponto da crueldade que ainda aprisiona o ofendido.

Semelhança se faz num pai raivoso, violento e em posturas autoritárias. Um exercício de auto-percepção em relação a tais formatos. Quando discuto em briga familiar por motivo político, por exemplo, acho que estou carregando na pele um sujeito dessa estirpe. Quando encerro esforço pela razão estou envolvido na força autoritária de buscar convencimento a todo custo. A ambiguidade do amor que bate! O espelho no outro, ainda que ele não vá modificar-se, é ponto significativo, não para brigar pela razão, mas para enxergar a mim mesmo em minhas posturas. Falar, não falar, refletir auto-criticamente. Quando deixar de falar não seja omissão e nem quando falar seja autenticidade, originalidade, espontaneidade!

 

6 – Reflexões sobre a pandemia coronavirus à luz da leitura do “Ética”, de Edgar Morin

Sonia Moraes Haddad

Fazer uma reflexão sobre a experiência pela qual está se passando, especialmente essa da pandemia do coronavirus, tão duramente marcante e tão inesperada na história da humanidade, é um modo de distanciar-se, saber objetivar-se e aceitar-se (aceitar a realidade), com recursos para desenvolver resistência e transcendência. O que tem penetrado em nossas consciências?

Do que posso perceber, a linha de força para uma ‘sabedoria’ que urge, uma sabedoria moderna, consiste na compreensão. Falo do ponto de vista pessoal, uma compreensão da complexidade do mundo e do humano para uma compreensão de si e do outro, na perspectiva de uma ética complexa.

Se o mal que sofremos e fazemos sofrer reside na incompreensão do outro, na cegueira das nossas ações e no pensar redutor, imediatista e fragmentado, na voracidade pelo consumo e pela acumulação, num desconhecimento e mentira a si próprio, então o caminho reside no esforço da compreensão, na auto-crítica e auto-ética que fortalecem a nossa vontade e ação em direção à ética da comunidade, que as precedem e as transcendem.

As grandes linhas da sabedoria se encontram no movimento ativo e participante do homem na realidade, na vontade de assumir as dialógicas humanas – que contém em si uma contradição – : a dialógica sapiens-demens e a dialógica prosa-poesia.

Fica a pergunta que não cala: seria sábio renunciar a ser cidadão deste mundo e se submeter/sujeitar ao que nos chega – do mais ínfimo ao mais trágico – sem ensaiar refletir sobre a experiência dos acontecimentos?

Seria sábio, ético, saudável, responsável…

 

7 – As lições da pandemia do coronavírus à luz do livro Ética de Morin

Vanessa Horta

“Não há dúvida de que a saúde deve ser pública e universal”. Disse Edgar Morin, em uma entrevista ao El País.

No Brasil, desde 1988, por comando constitucional, a saúde pública e universal é um direito social e fundamental, cabendo aos entes federados cuidar da saúde da população e defendê-la. Consequência de algumas escolhas que fizemos: o reconhecimento da dignidade da pessoa humana como fundamento do Estado Democrático de Direito e a assunção de objetivos que traçaram uma direção do bem comum e de valorização da vida: construção de uma sociedade livre, justa e solidária, erradicação da pobreza, redução de desigualdades sociais e promoção do bem de todos. Soma-se a isso, a regência das relações internacionais por princípios como a prevalência dos direitos humanos e a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade.

Nessa toada, ainda fomos mais longe. Também por comando constitucional, para além de uma saúde pública e universal, como almeja Morin, o acesso à saúde no Brasil deve ser igualitário – formal e materialmente, incluindo a equidade -, e as ações e serviços que dele decorrem são considerados de relevância pública. Como resultado, construímos um sistema único de saúde singular.

Nossa Constituição Federal não deixou de reconhecer a ordem econômica. Contudo, a subordina a uma finalidade – existência digna, conforme os ditames da justiça social – e inclui entre os princípios gerais da atividade econômica, a função social da propriedade e a redução das desigualdades regionais e sociais.

Em meio a um processo histórico eivado de erros, iniquidades e barbáries, tal fato é representativo de que o povo brasileiro, naquele momento, reconheceu e escolheu a vida, a dignidade humana e a solidariedade como valores comuns, caros ao ser humano e inafastáveis da nossa sociedade.

Fato é que aderimos a uma ética da solidariedade ao nutrir um sentimento de comunidade, inclusivo, que foi fonte de solidariedade e responsabilidade, sem deixar de reconhecer a prevalência de uma ética universalista da comunidade humana.

Hoje, preparados ou não, fomos pegos pelo inesperado de uma pandemia. Vivenciamos uma crise global, sanitária e civilizatória, na qual incertezas e dúvidas pairam no ar e nos habitam. Mas a incerteza e a dúvida não são mesmo inerentes ao humano? Para Morin, aprender a aceitar e a conviver com as incertezas nos ajuda a não naufragar na angústia e também a ter olhos para reconhecer pequenas ilhas de certeza que podem nos reabastecer.

É certo que necessidades vitais nos estão sendo negadas, incluindo a mais vital, respirar. É certo, também, que por vezes (e às vezes demasiado) dominam as barbáries, as forças de separação comunitária e de destruição do que um dia construímos em termos civilizatórios. Mas dentre tantas incertezas e dúvidas, aprofundadas pela pandemia, nutrir a nossa frágil consciência com o fato de que um dia fizemos, coletivamente, algumas escolhas em direção à vida e não à morte (apesar de inevitável), pode ser uma ilha de terra firme.

Ou seja. Mesmo em meio a tantas degradações, se um dia houve algum esforço coletivo e inclusivo para o bem comum, significa que esta potência também nos habita, como pessoa e como Povo. E que se mostra possível regenerar tais fontes de responsabilidade-solidariedade, tão esgarçadas pelas políticas neoliberais, pelo capitalismo necrófilo, pelo enfraquecimento da democracia, pelo autoritarismo, pelo egocentrismo, pela violência, pela destruição do planeta e tantos outros mecanismos que solapam a nossa consciência planetária.

Pode ser uma possibilidade; sujeita, como disse Morin, aos riscos de desastre da boa intenção e à incerteza de qualquer resultado final – “nenhuma ação tem a garantia de seguir o rumo da sua intenção” (ecologia da ação). Mas que não deixa de conter alguns grampos de segurança: a análise do contexto onde se realiza a ação; o conhecimento da ecologia da ação; o reconhecimento das incertezas e ilusões éticas; a prática da autoanálise; a escolha refletida de uma decisão e a consciência da aposta que ela comporta.

Para Morin, trata-se de uma aposta ética, que assume a incerteza das consequências da ação, reconhecendo os seus riscos, mas que também permite elaborar uma estratégia: vigilância permanente durante a ação, considerar os imprevistos, permitir-se modificar a estratégia durante a ação ou, eventualmente, anular a ação em caso de desvio nocivo. Uma ética complexa, que pede uma autonomia da consciência e um sentido de responsabilidade.

Após quase um ano de pandemia e de amostras de que as consequências de nossos atos e escolhas são planetárias, as apostas éticas que faremos podem vir a definir o destino da humanidade. Morin, de forma generosa, nos deu um critério de escolha, baseado na trifinalidade liberdade-igualdade-fraternidade. Ele diz que, conforme as épocas, podemos priorizar uma das finalidades, sem esquecer as demais; mas que atualmente, levando em conta a desintegração da solidariedade, a finalidade estratégica é a fraternidade, “que por ela mesma favorece a liberdade e reduz a desigualdade”.

Uma fraternidade no contexto de uma ética (complexa) planetária, voltada para um esforço direcionado ao bem comum universal, que nos exige o reconhecimento de nossa finitude, o reconhecimento do outro como um semelhante, a tomada de consciência ecológica da nossa condição no planeta e no cosmos, e a assunção da responsabilidade e solidariedade “para com os filhos da Terra”. Vamos topar essa aposta ética?

 

8 – Lições da pandemia à luz da ética de Edgard Morin

Daniela Yokoyama

O dedo serve para apontar a lua.

O sábio olha para a lua;

o ignorante olha para o dedo .

A crise mundial provocada pelo novo coronavírus descortinou e aprofundou mazelas que há muito tempo vem sendo gestadas. Vivenciamos o mundo se debatendo e lutando contra um vírus que vem nos exigindo, para enfrentá-lo, mudanças profundas na forma de pensar e de viver.

As grandes desigualdades mundiais no acesso a direitos básicos, como a saúde; a falta de equidade nas condições para o cumprimento das medidas sanitárias impostas; a ilusória dicotomia entre economia e vida – onde, podemos dizer, tem prevalecido a primeira; a concorrência entre governos na disputa pelos insumos necessários, dentre tantas situações vivenciadas, coloca em evidência que a solidariedade e a responsabilidade ficaram, na maior parte do tempo, ausentes nesse processo.

No Brasil, 2º país com maior número de casos da doença e de mortes, integramos o grupo de países que, deliberadamente caminharam na pandemia na direção contrária à proteção da vida das pessoas – seja pela omissão na adoção das políticas sociais e econômicas necessárias; pelo negacionismo quanto à gravidade e urgência do momento que dominou o governo e, consequentemente, parte da população; pela falta de planejamento, articulação, gestão; pelo discurso contraditório. Caminhamos na direção do extermínio de nossos grupos mais vulneráveis, como idosos, indígenas e os mais pobres. Como consequência, são mais de 200.000 mortes (dados subnotificados) e os riscos de se alastrar pelo país a situação que hoje impera na cidade de Manaus, com mortes coletivas e simultâneas de doentes por falta de oxigênio. E, mesmo com o horizonte esperançoso da vacina, estamos, o país com o melhor programa de vacinação em massa do mundo, ainda sem perspectivas reais de vacinação da nossa população.

E, para além da conduta de governos, nós, “cidadãos comuns” – especialmente os mais jovens e em condições privilegiadas – temos contribuído deliberadamente para o alastramento da doença, promovendo aglomerações em festas, bares e shopping centers.

O que aconteceu para que agíssemos de forma tão ineficiente e irresponsável diante de uma situação tão grave, havendo condições de agirmos de forma diferente? Como políticas públicas já consolidadas – no caso do Brasil, a logística do SUS e o programa nacional de imunização – foram deixadas de lado, nos colocando como baratas tontas diante do pisoteio do gigante? O que explica que pessoas ignorem de forma deliberada os alertas das autoridades e da ciência e se coloquem, assim como a seus próximos, em iminente risco de morte?

À luz do pensamento de Edgard Morin, podemos dizer, nesse cenário, que o pensar mal, que corrói a ética, mata pessoas!

Na data de ontem, o diretor executivo da OMS no fez um chamado ético, alertando para o fato de que não devemos culpar o vírus pelo que está acontecendo em Manaus, pois precisamos assumir nossas responsabilidades, como cidadãos, sociedade e governos . Precisamos assumir nossas responsabilidades pelas escolhas feitas – individual e coletivamente – para que possamos, a partir desse ponto de inflexão, redirecionar nossas ações, melhorar as estratégias e fazer novas apostas, considerando as incertezas inerentes à realidade atual.

A crise do coronavírus e os desastres que temos observado ocorrer em sua condução nos evidenciam que a forma como temos escolhido viver fragmenta nosso pensamento e nos torna fragmentados enquanto pessoas, desligados da complexidade que nos compõe – a tríade inseparável indivíduo-sociedade-espécie trazida por Morin – e, consequentemente, nos impõe um individualismo excludente, com uma ética individual ou grupal que corrói as fontes originárias de uma ética universal – a solidariedade e a responsabilidade – comprometendo a convivência e, no limite, nossa própria sobrevivência.

Nossos desvios éticos vêm de uma insuficiência de senso crítico e de uma dificuldade de obter conhecimento pertinente – fortalecendo uma certa propensão à ilusão, nos diz Morin. O pensar mal, a incapacidade de ver o todo e religar-se a ele, está na base dos desvios éticos cometidos na crise do coronavírus.

Precisamos de uma disposição interna para trabalhar na direção do pensar bem.

As incertezas inerentes à realidade – vivenciadas de forma amplificada neste momento – exigem um pensamento pertinente, que nos permita analisar a realidade do modo mais abrangente possível, no contexto da complexidade dos acontecimentos, para que possamos, a partir de estratégias adequadas, fazer escolhas e respondermos por elas. Estamos sendo chamados a trabalhar, mais do que nunca, nossa forma de pensar, a nos integrar em nossa complexidade a partir da compreensão da complementariedade do que se opõe, a compreender a partir de uma visão que seja multidimensional.

Vivemos uma crise sem precedentes. Temos observados que a humanidade está à mercê de riscos que poderiam ser evitados ou, ao menos, não aprofundados nesse processo, e isso é fruto de um pensar mal – de uma forma compartimentada de pensar e enxergar a realidade, da ignorância dos contextos, da visão meramente imediata, da perda do essencial pelo urgente, da lógica mecanicista e determinista dentro de uma realidade fechada.

Traz, no entanto, esperança pensar na ambivalência de toda crise, que permite a convivência do aumento da incerteza e da desorganização com a possibilidade do surgimento de uma nova organização.

O real que hoje nos salta à vista foi gerado por forças subterrâneas, invisíveis em seu começo, que ocasionaram as transformações atuais.  Se não fomos capazes de enxergar as forças que originaram a situação-limite que hoje vivemos quando ainda estavam ocultas e podiam ser revertidas, podemos nos agarrar na consciência de que outras transformações – agora movidas por um imperativo ético fundado em uma outra forma de pensar – podem ser gestadas agora para que, num futuro próximo, seja criada uma nova realidade social.

O pensar bem que E. Morin nos apresenta reconhece a complexidade humana; busca um conhecimento trans ou polidisciplinar; se propõe, ao mesmo tempo, a distinguir e religar; reconhece a multiplicidade contida na unidade e a unidade na multiplicidade; supera o reducionismo ligando as partes ao todo; permite inserir a ação na imprevisibilidade dos resultados pela interação com os contextos (ecologia da ação); inscreve o pensamento na relação circular passado-presente-futuro; não esquece a urgência do essencial; possui uma racionalidade aberta; reconhece e enfrenta incertezas e contradições superando a lógica binária; considera os contextos mais amplos e a realidade local ao mesmo tempo; possui a consciência da solidariedade; luta contra o que cega e gera ilusão.

O pensar bem clama também pelo pensar-se bem da autoética, esse trabalho individual por uma ética de si para si mesmo, que comporta, ainda, a autoanalise, a autocritica, a tolerância, a luta contra o julgamento moral que se recusa a analisar e pensar (moralina), a resistência à lei de talião e ao sacrifício do outro, a tomada da responsabilidade.

O trabalho para fazer ser possível uma nova realidade, no âmbito individual e da convivência humana, com todas as incertezas inerentes ao percurso, nos dá recursos para que, na encruzilhada em que nos encontramos, entre o caminho do aprofundamento da barbárie e a possibilidade de uma guinada em direção a uma humanização radical de nossa condição na Terra, possamos seguir nesta última direção.

 

9 – Esperanza

Clara Almeida

A pior das atitudes é a indiferença, é dizer ‘não posso fazer nada, estou me virando’. Quando assim se comportam, vocês estão perdendo um dos componentes indispensáveis: a capacidade de se indignar (…) Stéphane Hessel

Toda metamorfose parece impossível antes de ocorrer

Edgar Morin

Nos últimos dias tem sido especialmente difícil acompanhar os desdobramentos da pandemia, com o aumento de contaminações e mortes, com os fechamentos das cidades e o colapso do sistema de saúde em Manaus, tudo isso acompanhado da indiferença do Governo Federal e de seus apoiadores.

Considerando este cenário de horrores e a leitura do livro O método 6 – Ética, de Edgar Morin, fiquei pensando em como, enquanto sociedade, perdemos a consciência do coletivo e, assim, passamos a agir apenas considerando nossas vontades individuais, egocêntricas, sem realizar um exercício crítico acerca da responsabilidade pelas consequências dos nossos atos.

Fiquei me perguntando como a religação da nossa civilização seria possível, considerando que temos que religar, também, com as pessoas que apoiam e seguem este Governo e com as pessoas que desacreditaram, desde o início, da ciência e da seriedade da pandemia. Preciso mesmo religar com estas pessoas? Qual é o limite da tolerância com o pensamento que provoca e reafirma as violências e desumanidades que estamos vivendo? Existe limite? Como compreender estas pessoas sem cair em moralina? Afinal, existiam outras opções na eleição de 2018 e hoje colhemos as consequências dos votos que elegeram Bolsonaro como Presidente.

Me peguei sem energias, desacreditada em qualquer possibilidade de mudança nos rumos da humanidade, ficou tudo escuro e pesado, me entreguei à angustia. Mas, para minha sorte, Morin me trouxe de volta à realidade, ao mostrar que é exatamente nestes momentos que a esperança (re)existe, já que Dizer que se tem esperança é afirmar que existem muitas razões para desesperar .

Percebi que a angústia é um bloqueio à minha esperança, por me causar uma cegueira acerca das possibilidades e não me permitir agir. Assim, resolvi escolher um sentimento diferente frente a tudo que estamos vivendo, a indignação.

Há muito a ser feito e começar por onde nossa mão alcança torna a caminhada de resistência às barbáries mais factível. Então resolvi escolher o mais fácil e acessível neste momento, começar por mim mesma, conjugando Morin com Hessel e Artear. É necessário, primeiramente, resistir às maldades, crueldades e indiferenças em mim, e como criar é resistir e resistir é criar, então, nada melhor que criar fazendo arte.

Decidi então tirar do papel (e colocar no pano), Esperanza, para reanimar os ânimos e permitir os baby steps da minha resistência. Foi o modo como dei conta, hoje, de trazer frestas de luz ao breu em que eu estava e não deixar a esperança escapar. As perguntas continuam me acompanhando, mas para não me deixar cair em angustia e desânimo e trazer mais poesia para o meu dia a dia, escolhi dançar com a linha e agulha, ponto a ponto, resistindo.

Tirando o risco para o bordado.

É a primeira vez que tiro um risco com a caixa de luz!! Achei super legal, é só colocar um papel embaixo com o pano em cima e riscar. Decidi não desenhar as linhas embaixo de cada verso, para não controlar milimetricamente a direção de cada um, deixar fluir, como um exercício para aprender a admirar as linhas tortas.

 

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